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Mídia e Suicídio

O assunto suicídio é velado e escondido por muitos. A própria palavra em si produz impacto diante do que significa: o autoextermínio, quando a regra geral é o da preservação.

Pesquisando acerca do tema, a literatura cientifica e não cientifica é farta acerca da consideração do suicídio como tabu, vergonha, encoberto e até invisível ou passível de ser camuflado por familiares, autoridades e afins.

Assim, face as nossas pesquisas acerca do tema, gostaríamos de enfatizar o seguinte no que concerne ao binômio-mídia e suicídio:

  • Não existe proibição legal de que informações sobre suicídio sejam noticiadas. O que não pode ocorrer é a instigação (reforço de uma ideia pré-existente), a indução (criação de uma ideia nova de morte voluntária) e o auxílio ao suicídio, conforme previsão legal do art. 122 do Código Penal.
  • Não existe referência escrita no código de ética do jornalismo impedindo de que notícias sobre suicídio sejam veiculadas.
  • Alguns jornais como o jornal opovo do Ceará condicionando o suicídio que foi de grande relevância para a sociedade passível de divulgação. Suicídios isolados e de desconhecidos seriam apenas uma possibilidade de divulgação desnecessária.1
  • No jornalismo, o que se teme principalmente diante da divulgação de suicídios é o efeito Werther. (Um livro chamado os sofrimentos do jovem werther virou best-seller na Europa e coincidiu com vários suicídios de jovens com o mesmo instrumento arma de fogo, com tiro na cabeça tal qual ocorreu no livro, onde um jovem se apaixona por uma mulher casada e não conseguindo efetivar seu amor se mata de forma romântica e trágica). Os vários casos de suicídios similares que ocorreram na Europa chamou a atenção de muitos como sendo um efeito contágio que foi batizado de efeito Werther. Para alguns sociólogos e outros pesquisadores,  o termo sinônimo utilizado é efeito imitação ou mimetismo social ou ainda efeito dominó. 2
  • A OMS3 diz que não se deve deixar de falar, e sim o contrario, falar abertamente sobre o assunto, mas de maneira madura, com objetivo de alcançar prevenção e oferecer ajuda, locais onde possam ser realizados atendimentos de pessoas em crises existências como o CVV (site para atendimento on line e outras dúvidas: www.cvv.org.br, centro de valorização da vida. Falar não aumenta os suicídios, isso é um mito.
  • Na prática, em pesquisas rápidas, pode-se observar que o assunto suicídio é de fato divulgado nas mídias escritas da rede mundial de computadores O problema é que muitas notícias sobre suicídios não são escritas de forma a se obter prevenção ou com a preocupação de como é retratado esse tema tão sensível. Sugere-se que sempre que o tema suicídio for abordado na mídia escrita ou não, sejam apresentados os telefones de linhas da vida da cidade, sites de igual natureza, número de serviços de atendimento em caso de crises suicidas, emergenciais ou não, como no caso do Corpo de Bombeiros (fone 193) e SAMU (fone 192), enfim, que seja apresentado ao leitor, que porventura passe por problemas semelhantes de pensamentos suicidas, serviços de ajuda para evitarem-se novos casos de suicídio. 4
  • Independente de a mídia falar sobre o suicídio e sua prevenção, as redes sociais e aplicativos de internet como facebook e whatsapp são portas de acesso não somente para informações acerca do suicídio, mas para formas de se matar, jogos que influenciam os suicídios como a “baleia azul”, entre outros. Uma rápida conclusão a que se chega é que ou a mídia trata o assunto de forma responsável ou as pessoas terão acesso somente a informação irresponsáveis (irresponsável no sentido de que dificilmente se chega aos autores de tais mensagens, vídeos, jogos e afins que influenciam a tentativas de suicídio, impossibilitando que esses indivíduos respondam pelo cometimento do crime do art. 122 do CP já supracitado).
  • Atualmente, diante da carga de dramaticidade e de urgência que o tema traz, uma vez que a cada 40 segundos uma pessoa se mata no mundo, e a cada 3 segundos uma pessoa tenta se matar, a minissérie da netflix “Os 13 porquês” conseguiu uma audiência estrondosa de pessoas ao redor do mundo. Tendo o devido cuidado de assistir e de analisar a série de “sucesso”, foi observado que o trabalho de arte é bem realizado. No entanto, somente em episódios perto do final da temporada, houve mensagens de alerta acerca das cenas impactantes que apareciam nos episódios, tais como estupro e suicídio consumado, quando de fato, esses avisos deveriam ocorrer desde o começo de cada capítulo da série televisiva. Diante de um possível efeito werther, bem como o disparar de gatilhos que induzissem ou instigassem a tentativas de suicídio, recomenda-se que a série só seja assistida por pessoas em ótimo ou excelente estado emocional, bem como, caso possível, os adolescentes assistissem com os pais ou pessoa mais madura e responsável que pudessem orientar e debater acerca de inúmeros temas que aparecem retratados na história da personagem Hanna Backer, como bullying, sexismo, invasão de privacidade, chantagem, vingança, adição à drogas, alcoolismo, entre demais temas que são relevantes a vida das pessoas, principalmente dos jovens.

Autor: Edir Paixão

Major do CBMCE, Mestre em saúde pública, Escritor e palestrante da área de prevenção de suicídios, Cmt da 1a seção de busca e salvamento do CBMCE, Docente da Academia Estadual de Seg. Pública e do Colégio Militar do CBMCE.

Referências Bibliográficas

RAMOS, S. Mídia e violência: tendência na cobertura de criminalidade e segurança pública no Brasil. Rio de Janeiro, IUPERJ, 2007.
Sousa, J E P. Tentativas de suicídio e suicídios em profissionais de Segurança Pública do Estado do Ceará: magnitude, perfil e fatores associados, 2000 a 2014. Dissertação de mestrado. 198f. Fortaleza, Ceará, 2016.
WAISELFISZ, J. J. Mapa da violência 2014 : os jovens do Brasil. Rio de Janeiro: FLACSO Brasil, 2014.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Preventing suicide a global imperative: myths. 2014b. Disponível em: Clique Aqui Acesso em: 02 abr. 2015.

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